Umbanda

Uma tradição afro-brasileira viva e plural

Uma introdução à história, aos fundamentos e à forma como vivemos a Umbanda na Casa de Axé Águas de Oxum.

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O que é Umbanda?

Umbanda é uma tradição religiosa afro-brasileira, viva e plural, que tomou forma no Brasil a partir de saberes, espiritualidades e experiências que atravessam diferentes povos, territórios e momentos da nossa história.

Suas raízes estão profundamente ligadas à presença africana e à diáspora no Brasil, mas sua formação também se deu em diálogo com povos indígenas, com a realidade brasileira e com diferentes correntes religiosas e espirituais encontradas ao longo de seu caminho.

Uma das primeiras coisas importantes a compreender sobre a Umbanda é que não existe uma única forma de vivê-la. Talvez seja mais correto falar em Umbandas do que em uma única Umbanda.

Não existe uma autoridade central capaz de estabelecer uma doutrina ou liturgia obrigatória para todos os terreiros, nem um único livro sagrado.

Cada comunidade se organiza a partir de seus fundamentos, de sua linhagem, de seus mais velhos, de suas experiências e da maneira como recebeu, preservou e desenvolveu sua tradição.

A Umbanda é descentralizada, mas não é desestruturada.

Isso não significa ausência de autoridade, tradição ou hierarquia. Terreiros possuem suas próprias estruturas de sacerdócio, senioridade, responsabilidade, conhecimento e transmissão.

A autoridade é transmitida, exercida e reconhecida dentro de comunidades, linhagens e tradições, e não concentrada em uma instituição capaz de determinar como todas as Umbandas devem existir.

Por isso, diferentes terreiros podem compartilhar muitos fundamentos e, ao mesmo tempo, compreender de maneiras distintas os Orixás, os guias espirituais, a ancestralidade, a mediunidade, os rituais, as linhas de trabalho e até mesmo a própria história da Umbanda.

Aqui na Casa de Axé Águas de Oxum, falamos a partir do lugar que ocupamos dentro dessa diversidade.

Nossa Umbanda reconhece suas raízes afro-indígenas, compreende a natureza como manifestação do sagrado, honra os Orixás, a ancestralidade e os guias espirituais e reconhece em Ori (a divindade pessoal e princípio primordial de cada indivíduo, ligado à sua individualidade, personalidade, destino e caminho) uma dimensão fundamental da responsabilidade de cada pessoa sobre a própria existência.

Não pretendemos falar em nome de todas as Umbandas. Pretendemos mostrar, com clareza, de onde falamos.

Raízes, história e diversidade

De onde vem a Umbanda?

Contar a história da Umbanda exige reconhecer que ela não possui uma única certidão de nascimento.

Muito antes de “Umbanda” se consolidar como nome e identidade religiosa, africanos trazidos à força para o Brasil e seus descendentes já reconstruíam, preservavam e transformavam diferentes formas de relação com o sagrado.

Esses povos vieram de diferentes sociedades, línguas e tradições e trouxeram conhecimentos sobre divindades, ancestralidade, natureza, cura, transe, proteção, comunidade e ritual.

No Brasil, esses saberes foram reorganizados em condições profundamente marcadas pela escravização, pela violência colonial, pela separação de comunidades e pela necessidade de recriar formas de continuidade em um novo território.

Nesse amplo campo religioso desenvolveram-se diferentes expressões afro-brasileiras. Matrizes banto, nagô/iorubá, jeje e outras tradições se encontraram, dialogaram e se transformaram no Brasil.

Esse processo também aconteceu em territórios habitados por inúmeros povos indígenas, cada qual com seus próprios conhecimentos, cosmologias e relações com o território e com o sagrado.

Quando falamos em raízes indígenas da Umbanda, portanto, não estamos falando de uma única tradição indígena nem de uma linha de transmissão simples e uniforme.

A presença indígena aparece de diferentes maneiras: nos encontros históricos entre povos e comunidades, em conhecimentos e práticas que circularam pelo território brasileiro e, de maneira especialmente visível, na presença dos Caboclos dentro das religiões afro-brasileiras.

A formação das Umbandas aconteceu ainda dentro de uma sociedade profundamente marcada pelo catolicismo e, a partir do século XIX, pelo crescimento do Espiritismo kardecista.

Por isso, dizer simplesmente que “Umbanda é uma mistura de religião africana, indígena, católica e espírita” é insuficiente.

Não estamos diante de ingredientes colocados juntos em proporções iguais, mas de séculos de resistência, convivência, conflito, imposição, apropriação, transformação e criação religiosa.

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, especialmente nos centros urbanos do Sudeste brasileiro, começaram a se organizar nesse amplo campo religioso práticas e comunidades que seriam progressivamente identificadas como Umbanda.

Uma história também moldada por disputa e resistência

A Umbanda não cresceu em condições neutras.

Religiões e práticas afro-brasileiras foram historicamente perseguidas, criminalizadas, desqualificadas e associadas à ideia de atraso, superstição ou feitiçaria.

Povos indígenas e suas tradições também atravessaram séculos de violência, deslocamento, conversão forçada e tentativas de apagamento.

Ao longo do século XX, diferentes lideranças umbandistas buscaram reconhecimento e legitimidade pública. Surgiram federações, congressos e tentativas de organizar e até uniformizar a religião.

Essa busca por legitimidade também produziu tensões.

Algumas correntes aproximaram fortemente a Umbanda do Espiritismo e do Cristianismo e procuraram afastá-la de práticas identificadas como africanas ou como “macumba”.

Parte desse processo é descrita como branqueamento ou desafricanização, ligada tanto ao racismo da sociedade brasileira quanto às estratégias adotadas por algumas correntes para conquistar aceitação social.

Outras comunidades mantiveram vínculos mais evidentes com suas matrizes africanas, e movimentos posteriores voltaram deliberadamente a afirmar essas raízes.

Isso ajuda a compreender por que hoje podemos encontrar Umbandas extremamente diferentes entre si.

Essas diferenças não surgiram por acaso. Elas carregam a própria história da Umbanda.

É dentro dessa história viva, e não a partir de um único momento fundador, que compreendemos as Umbandas de hoje.

O sagrado e as relações que construímos

Compreender a Umbanda apenas a partir da pergunta “no que vocês acreditam?” deixa de fora uma parte importante de como essa religião é vivida.

Sua experiência religiosa acontece também através das relações que são construídas e cultivadas: com os Orixás, com a ancestralidade e os guias espirituais, com a comunidade, com os espaços sagrados e com os elementos utilizados no ritual.

Muitos conhecimentos dentro da Umbanda não são apenas explicados.

Eles são também aprendidos pela experiência.

Aprende-se participando de uma gira, ouvindo os mais velhos, cantando, tocando, observando, cuidando, preparando, oferecendo, incorporando e convivendo.

O corpo participa dessa experiência. O terreiro participa.

Como compreendemos o sagrado em nosso terreiro

Na Casa de Axé Águas de Oxum, partimos de uma compreensão fundamental:

A natureza é o todo sagrado ao nosso redor e dentro de nós.

Para nós, o sagrado não está separado da existência nem confinado a um lugar distante. Ele se manifesta na própria vida e nas relações que a sustentam.

Natureza

A natureza nos situa dentro do todo.

Ela não é apenas o cenário onde o sagrado se manifesta. Para nós, participa da própria experiência do sagrado.

Orixás

Reconhecemos os Orixás como expressões sagradas da natureza, de seus elementos, fenômenos, forças, princípios e dinâmicas.

Através dessas divindades reconhecemos potências que participam da existência, do mundo e também da experiência humana.

Ancestralidade e guias

Compreendemos a ancestralidade como aquilo que nos liga a quem veio antes.

Ela existe no sangue e nas histórias de nossas famílias e povos, mas também na tradição e na espiritualidade.

Nossos guias participam dessa ancestralidade espiritual e de tradição: carregam saberes e experiências e continuam trabalhando, ensinando, aconselhando e cuidando junto às nossas comunidades.

Ori

Ori é a divindade pessoal e princípio primordial de cada indivíduo.

Está ligado àquilo que é singular em cada pessoa: sua individualidade, personalidade, destino e caminho.

Ori também nos devolve à responsabilidade que temos diante da nossa própria caminhada.

O sagrado para além do terreiro

Essa compreensão nos impede de viver a espiritualidade como se existissem dois estados completamente separados: um dentro do terreiro e outro fora dele.

Aquilo que cultivamos diante do sagrado precisa encontrar expressão na maneira como vivemos: nas escolhas que fazemos, na forma como tratamos outras pessoas, no cuidado com aquilo que nos cerca, no cuidado conosco e na responsabilidade que assumimos pelas nossas ações.

Cultuar Orixás, buscar orientação espiritual ou receber o cuidado de um guia não elimina aquilo que cabe a cada pessoa sentir, viver, escolher, aprender, reparar e transformar.

A espiritualidade pode orientar, fortalecer, abrir caminhos e revelar possibilidades.

Mas nada disso garante que nossas escolhas estejam alinhadas ao nosso Ori.

Podemos ouvir e ainda assim escolher não seguir.

Podemos conhecer e não agir de acordo.

Podemos reconhecer um caminho e ainda tomar outro.

Por isso, responsabilidade pessoal ocupa um lugar importante na forma como vivemos o sagrado.

Viver a Umbanda não significa apenas acreditar na existência dos Orixás ou dos espíritos.

Significa também construir uma relação com o sagrado que encontre expressão na maneira como sentimos e elaboramos nossas experiências, em nossas escolhas, atitudes, relações e na forma como caminhamos pela vida.

O terreiro e a gira

Mais do que um espaço religioso

Na Umbanda, terreiro, também chamado em algumas tradições de Casa de Axé, é o espaço onde uma comunidade religiosa se reúne, cultua, aprende e realiza seus trabalhos.

Mas um terreiro é mais do que o lugar físico onde os rituais acontecem.

Ele é também uma comunidade construída a partir de relações, fundamentos, responsabilidades e de uma vida espiritual compartilhada.

É onde conhecimentos são transmitidos, membros praticam e aprendem, os mais velhos ensinam, os Orixás são cultuados, os guias trabalham e pessoas se reúnem para cuidar umas das outras e comungar com aquilo que reconhecem como sagrado.

Cada terreiro possui sua própria organização, liderança, cargos, práticas e formas de conduzir seus rituais.

Por isso, visitar um terreiro é sempre também conhecer uma comunidade específica dentro da diversidade das Umbandas.

O que é uma gira?

Uma das principais formas de reunião ritual da Umbanda é chamada de gira.

É uma cerimônia em que a comunidade se reúne para cultuar, cantar, rezar, trabalhar com seus guias e compartilhar o sagrado.

Não existe uma sequência única que todas as giras devam seguir.

Dependendo do terreiro e do propósito daquele trabalho, podem existir orações e saudações, pontos cantados, atabaques, defumação, ervas, oferendas, dança, mediunidade, incorporação e atendimento espiritual.

Algumas giras são abertas ao público. Outras são realizadas internamente pela comunidade.

Na nossa Casa, compreendemos cada gira como um encontro entre comunidade, ancestralidade, Orixás, guias e o sagrado que cultivamos juntos.

Corpo, som, canto e movimento

A música não é apenas acompanhamento do ritual.

Ela é parte sagrada e fundamental dele.

Os pontos cantados são cantos utilizados para saudar, louvar, chamar, sustentar ou se despedir de Orixás e guias e para acompanhar diferentes momentos do trabalho.

Atabaques, vozes, palmas, canto, ritmo e movimento compõem aquilo que em muitos terreiros chamamos de curimba.

Em nossa Casa, compreendemos que esses elementos mobilizam e conduzem o axé (força vital e sagrada que circula, sustenta e transforma a vida e as relações), favorecendo a relação entre as dimensões espiritual e material e ajudando a preparar e sustentar a incorporação.

Mediunidade e incorporação

A mediunidade ocupa um lugar importante em muitas formas de Umbanda.

Uma de suas manifestações mais conhecidas é a incorporação, experiência mediúnica através da qual guias espirituais se manifestam por meio do corpo do médium.

Em muitas tradições fala-se também na manifestação ou incorporação dos próprios Orixás; outras compreendem essa relação de maneiras diferentes.

Em nossa Casa, reconhecemos manifestações tanto dos guias quanto dos Orixás através do corpo do médium.

A incorporação não é experimentada da mesma forma por todas as pessoas. Pode apresentar diferentes intensidades e diferentes graus de consciência durante o processo.

Guias espirituais se apresentam em diferentes linhas de trabalho, como Pretos Velhos, Caboclos, Exus, Pombagiras, Erês e outras.

Eles participam ativamente da vida religiosa, aconselhando, ensinando, escutando, orientando e realizando diferentes formas de trabalho e cuidado espiritual.

E quem visita?

Não é necessário pertencer ao terreiro ou conhecer previamente a Umbanda para participar de uma gira aberta.

Visitantes podem acompanhar os cantos e orações, participar daquele espaço de axé, receber passes ou outros cuidados espirituais e, quando o trabalho inclui consultas, conversar diretamente com um guia incorporado.

Pessoas procuram os guias por diferentes razões: podem estar atravessando uma dificuldade, enfrentando uma aflição, buscando orientação, tentando compreender melhor uma situação ou simplesmente desejando conversar e ouvir aquilo que aquela entidade tem a compartilhar.

O que se espera de quem visita é respeito pelo espaço, pela comunidade e pelas orientações daquela Casa.

Ver próximas giras

O ritual termina, a relação continua

Uma gira possui começo, meio e fim, mas aquilo que se vive no terreiro não termina necessariamente quando atravessamos a porta da rua.

Depois da gira permanecem as relações que construímos, aquilo que aprendemos, as responsabilidades que assumimos e as escolhas que fazemos a partir dali.

O terreiro é um lugar onde encontramos, cultivamos e aprendemos a reconhecer o sagrado; onde desenvolvemos relações saudáveis com o próximo, conosco mesmos, com a comunidade e com o divino.

O que vivemos ali continua na maneira como escolhemos caminhar fora dele.

Vocabulário essencial

Como toda tradição religiosa, a Umbanda possui um vocabulário próprio.

Algumas palavras vêm de línguas africanas. Outras existem também no português cotidiano, mas possuem dentro da Umbanda significados específicos que podem ser novos mesmo para quem fala português como primeira língua.

Por isso, procuramos não apenas utilizar esses termos, mas também explicar o que significam dentro da nossa tradição.

Na versão inglesa, muitas dessas palavras permanecem sem tradução porque carregam conceitos próprios que não encontram equivalência exata em outra língua.

Umbanda

Tradição religiosa afro-brasileira, viva e plural, formada no Brasil através de diferentes povos, saberes, experiências e processos históricos.

Terreiro

Espaço e comunidade religiosa onde a Umbanda é vivida, os fundamentos são transmitidos e os trabalhos rituais e espirituais são realizados.

Gira

Reunião ou cerimônia ritual da Umbanda.

Orixá

Divindade e expressão sagrada da natureza, de seus elementos, fenômenos, forças, princípios e dinâmicas.

Ori

Divindade pessoal e princípio primordial de cada indivíduo, ligado à individualidade, personalidade, destino e caminho.

Axé

Força vital e sagrada que circula, sustenta e transforma a vida, os seres e as relações.

Fundamento

Conhecimentos, princípios, práticas e razões que sustentam uma tradição, uma Casa ou uma determinada prática religiosa.

Ancestralidade

Relação com aqueles que vieram antes de nós e com as histórias, conhecimentos e caminhos que recebemos através do sangue, da tradição e da espiritualidade.

Guia espiritual

Presença espiritual que participa da vida religiosa e pode ensinar, aconselhar, orientar, cuidar e realizar trabalhos junto à comunidade.

Mediunidade

Formas pelas quais uma pessoa pode perceber, experimentar ou intermediar relações com o mundo espiritual.

Incorporação

Experiência mediúnica através da qual uma presença espiritual se manifesta por meio do corpo do médium.

Curimba

Dimensão musical e ritual da gira, envolvendo cantos, ritmos, atabaques, palmas e as pessoas responsáveis por conduzir e sustentar esse trabalho.

Ponto cantado

Canto ritual utilizado para saudar, louvar, chamar, sustentar ou se despedir de Orixás e guias e para acompanhar diferentes momentos do trabalho espiritual.

Continue conhecendo nossa Casa

A Umbanda é uma tradição que se aprende também através da convivência, da experiência e do tempo.

Se quiser compreender melhor o lugar de onde falamos, continue explorando nossa tradição, nossos fundamentos e a vida da nossa comunidade.